segunda-feira, 29 de setembro de 2014

CRIATURA MODERNA



A tragédia não é nova
Nem os trajes
Para a festa a sós
Que se dança em nós
Malabares, contorções
O esquadrinho,
Que angula o tronco,
A serra,
Que encerra os tendões
Os pregos,
Que pregão em voz alta
Murmúrios vocais
O martelo
Marchando sobre os rijos músculos.
troveja,
Esta vivo
o frankenstein moderno da urbe.

Todas as pontas aparadas
Cálculos feitos
É matemática voodo
Que ultraja a vida
e clima o animo de clausuro
cala os bolsão dos olhos
com um roxo amargo
um soco de sono aplicado
nascido como milagre
incompreensível,
cruel, tangencial,
tão
que não se contorna. [L.B]

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DAS NOITES DE LUA GRANDE


15/09/2013
As folhas, agora um pouco mais verdes, apararam o vento quente, como dedos a acenar, dão adeus continuo para a luz refletida que viaja o universo, ao mesmo tempo em que bem-vindão os olhos, o instante e poesia.  Seria o vento um motivo a escrever? Por que escrevo? Escrevo sem motivo! Aparente. Afinal o que é o aparente se não um artifício, uma ilusão retórica. Risco as páginas porque em algum momento, no escuro de uma caverna, dedos sujos de sangue marcaram a pedra e a memória nasceu mais carne e osso que os corpos. De carvão eletrônico sujo o branco, porque minha cabeça está cheia, de matéria orgânica, de impulso elétrico e por extensão, de memória, saudade... Essas verdades mudas, que à revelia dos padrões médicos, endereçamos ao coração.
Sopra tão forte o vento, que a folha se desprende, lançada a queda livre. Aquilo é a vida da folha, uma força que a desprende. A vida é um salto. Estar encontrado é como morrer dos detalhes, dos sonhos e dos vendavais que guardam a infinitude. Aquilo que habita tanto o cristal de areia, quanto as massas estrelares. Porque tudo é grão a depender do quanto se afasta. E tudo é infinito se te comove. Comover-se nos detalhes e nos astros, modificar-se neles. Não somos mais que o fruto da interação com as formas, com os traços, cores e vibração. Não sou mais que morada da flor silvestre. Aeroplano dos aromas da primavera. Conjuro de querê-la...

A folha deita sobre o chão. Aparada na terra, mansa, canção de dois compassos, cálido, cálido... No encontro a paz se forma. O mistério enérgico, singular e sublime. Um desafio à lógica, porque dois, folha e chão, figuram uma só paisagem – marrons úmidos de outono. Similares, diluídos no mesmo som de vento. Extensões de fibras nervosas, raízes, barro que gruda, molduras da existência...  

 [L.B]

sábado, 5 de julho de 2014

IMPACIÊNCIA



Nós, sempre procuramos o melhor,
que vira o âmago numa tempestade
dentro de nós mesmos
durante a angústia da saudade
que devora toda dúvida na mente.

Escora-se nos ombros
chora desesperado
com olhos inchados
e coração apertado
desmaia num múrmuro para si mesma
e perde a razão num colapso
de um espírito insano
impaciente
Impaciência pro amor
que me devora
e não sei esperar
impaciência pra uma vida de entrelaços
chamego, carinho e aconchego
Não sei esperar.
Nada que traz você
é tão bom quanto o que te mantém aqui.



 (C.B)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

DUAS HORAS

                    



      Já eram duas da madrugada. Na cabeça a ideia da semana manifestou-se. Como fazem as verdadeiramente boas, insanas, nascidas de alguma profundeza borbulhante. Eram duas, as horas, cinco, as noites, e um, o amor. As horas persistem. Eis que essa é sua natureza, domar a matéria, compô-la em sistemas, obriga-la à articulação. Ventura e desventura do tempo. Pois que cada relação, cada choque, mínimo que seja entre dois produtos – dois temperos, dois átomos, dois corpos... – será a explosão revolucionária de uma transformação, multiplicada em escala crescente, diversificada em cada caso. E por mais que o tempo cumpra a contenção, nunca poderá reder sua antítese: jogo uma pena no vento, ela dança de forma única, irrepetível; encontro uns olhos doces, beijo-os, vivo-os, partem, mas não me deixam, nem ir, nem vir, tiram-me da matéria, raptam do tempo. É então que os relógios se zangam da sua sina.
           Os dias empilharam-se, cinco, fielmente contatos, como bem aconselha o relógio. Também repetiram-se, sistemáticos, como sonhou o senhor do destino. Contudo, ainda assim dispostos, gestavam, lá no fundo, uma ideia, talvez mais, algo sem nomenclatura. Fora os últimos cinco dias vividos. Tudo culpa do primeiro que cedeu ao acaso e apresentou, com injuria, uma criatura que podia abri-me o peito. Foi uma dessas manhas em que os raios do sol gelam, fazendo o orvalho perdurar horas a fio, onde as folhas caem contadas para pintar a terra somando-se a cor azul que escorre o horizonte, tinge as montanhas, casa-se com o oceano, e nesse caso, banha corpo e alma, desse meu encanto. Eram o azul, o orvalho e o sol fresco a chave que trouxera aquela mão. Dispôs entre minhas costelas, girou-a, tremeu meu coração, deu-lhe corda, equalizou, um som de dia, que não eram mais dias, e logo, nunca mais poderia vir a ser. Vieram depois outras feiras, terças e quartas. Nelas neguei-me retamente a admitir que desconhecesse o clausuro do tempo. No fim da quarta, que a essa altura confundirá com a quinta e desejei ser sexta, aceitei a ideia que amava-a. Disse tudo ao tempo, que se apressou a conduzir seus ponteiros, articular as horas, determinando os limites. Risos. O som do primeiro eu te amo humano ainda ecoa no universo, sabe-se lá onde ira parar, vai que seja o espaço curvo mesmo, a declaração rebatera na história, e estará comovendo um coração nosso nesse exato momento. Fato é que o tempo viu a fervura das minhas ideias. Que poderia fazer! Quem poderia!
        Foi o ultimo dia a que me dei conta, uma sexta feira, quando os ponteiros tiquetaquearam duas da madrugada. Era mesmo tarte, já era denominado pela ânsia de ama-la mais, de vivê-la inteira, amaldiçoei o tempo que quisera estacar meu peito em fogo. Rolei, chorei sorrindo, enlouqueci. Sufoquei-me em seu perfume, morri das imagens do mundo, ceguei-me para os reflexos, adormeci para nunca mais voltar ao controle das horas. Quando meu peito transbordou, veio viva a sua figura, dançou comigo, encontramos os lábios, depois os corpos, fomos barcos a deriva num beijo.     
[L.B]           

quinta-feira, 8 de maio de 2014

MANIFESTO DO AMOR LIVRE




Já riscaram de sangue o amor
Foi um horror
Os corações vestidos de bandeiras
Como idolatrias,  
Cercados de inimigos
dos vasos às artérias:
riscando no pulso
fronteiras.
Fielmente,
Burocraticamente delimitadas,
modeladas,
regradas palma a palma.
O espaço da loucura,
era a boca que cala.
É o sentimento
se fez calo.

É qualquer coisa insana
Essa insensatez planejada.
Tudo departamentado,
Um armário cheio de gavetas,
Onde lá no fundo
Guarda-se uma angustia
Uma confusão.

A peça única,
Como é cada batimento a dois,
Aquilo que chama amor,
Fora o que viera
da penumbra que fez a lanterna
esquecida ao acaso no silêncio.
Dali ao destino,
luziu no fio de seda
havia uma aranha e uma morte.

Certo assim é chamar amor
Aquilo que nasce por encanto,
Que é verdade pronunciada
Sempre,
Pelo meio,
Como só pode ser
Algo de essência eufórica
Muito perto
Do sem folego.
  
A esse astro
Não cabe papel em teatro
Pois não há mascara,
Para vestir-lhe a cara.
Nem há cerca capaz de Justapô-lo
Não sem desfigura-lo.

O amor é um pássaro
Risonho ao fim da tarde,

Vivo, porque voa. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

NOITES DE OUTONO

As folhas, agora um pouco mais verdes, apararam o vento quente, como dedos a acenar, dão adeus continuo para a luz refletida que viaja o universo, ao mesmo tempo em que bem-vindão os olhos, o instante e poesia.  Seria o vento um motivo a escrever? Por que escrevo? Escrevo sem motivo! Aparente. Afinal o que é o aparente se não um artifício, uma ilusão retórica. Risco as páginas porque em algum momento, no escuro de uma caverna, dedos sujos de sangue marcaram a pedra e a memória nasceu mais carne e osso que os corpos. De carvão eletrônico sujo o branco, porque minha cabeça está cheia, de matéria orgânica, de impulso elétrico e por extensão, de memória, saudade... Essas verdades mudas, que à revelia dos padrões médicos, endereçamos ao coração. 


Sopra tão forte o vento, que a folha se desprende, lançada a queda livre. Aquilo é a vida da folha, uma força que a desprende. A vida é um salto. Estar encontrado é como morrer dos detalhes, dos sonhos e dos vendavais que guardam a infinitude. Aquilo que habita tanto o cristal de areia, quanto as massas estrelares. Porque tudo é grão a depender do quanto se afasta. E tudo é infinito se te comove. Comover-se nos detalhes e nos astros, modificar-se neles. Não somos mais que o fruto da interação com as formas, com os traços, cores e vibração. Não sou mais que morada da flor silvestre. Aeroplano dos aromas da primavera. Conjuro de querê-la...
A folha deita sobre o chão. Aparada na terra, mansa, canção de dois compassos, cálido, cálido... No encontro a paz se forma. O mistério enérgico, singular e sublime. Um desafio à lógica, porque dois, folha e chão, figuram uma só paisagem – marrons úmidos de outono. Similares, diluídos no mesmo som de vento. Extensões de fibras nervosas, raízes, barro que gruda, molduras da existência...  [L.B]


domingo, 20 de abril de 2014

CALOTAS POLARES



O bloco de gelo pálido esteve ali estático, sabe-se lá por quantos milênios. Vieram primaveras, umas feitas distantes, outras bem perto. Contudo, nenhuma moveu a estrutura gélida, que continuava então, parada, selado externamente, adormecida no âmago. O sol mantinha seu ciclo, fazendo as estações. Nos invernos, os ventos cortantes caiam sobre a imponente pedra fria, açoitando-a ferozmente, fazendo seu núcleo mover-se em gemido.  No verão, quando dias mais calorosos davam luz, alguns raios somavam força, descobrindo as vistas do tempo um segredo de outras eras. Humanos! Homens, mulheres, crianças, consciências criadoras... todas compactadas dentro da grande pedra branca. A água morna que se fazia abaixo descortinava dedos inquietos, rasgando o gelo, como estatuas de silencio. Nos dias que se seguiram a descoberta o sol ardeu o frio, desvencilhando umas orelhas atentas e muitos olhos atônitos, movendo-se lá e cá, meio atordoados. Imagine a cena, grandes olhos negros, rodeados de vermelho sangue, nascidos para a luz, mas presos, de corpos endurecidos, de mãos atadas. O calor nunca era suficiente, logo caia a noite, os ventos do sul sopravam e o grande bloco de gelo retomava sua dimensão, a pedra engolia novamente o segredo funesto.
“A pedra fria
rói o corpo humano
dura
porque espelha
a carnívora alma
dura
porque amordaça gritos,
surda os ecos.”
Agruras da ganância, destino pré-visto, o sol por uma vez brilhou mais que o determinado. Isso porque tanto se queimou em volta, tanta fumaça se fez e devastou que um mormaço impregnou o ar, e pelo próprio sistema se criou dias de calor desértico. A pedra derretia rápido agora, formavam-se rios quentes e densos que ganhavam curvas sobre os corpos. Logo braços e pernas se desprendiam, e sob o calor do sol enegreciam, retorciam e mexiam frenéticas. Pouco depois se desprenderam os primeiros. Sua visão de fora, diante da bola incandescente, frente ao deserto e a seu repressor milenar, gélido, era a pura devastação. Avançaram sobre a pedra deformada e pálida, levantaram fogo, socaram, profanaram e cuspiram. E qual sábio poderá julgá-los: “aquele que caminhou de barriga cheia entre os famintos pode falar da paz?”.
A atitude irada somava-se ao clima desértico, o processo acelerava, diluindo mais e mais a pedra. Por fora e dentro o sangue fervia, tomando de gás espesso o ar acima. De fato os ataques furiosos às vezes feriam os que ainda estavam presos. Alguns ainda mais, porque vivendo ali congelados por tempos passaram a acreditar que o gelo era extensão sua. O tempo continuou a correr, logo, os amantes do gelo também se soltaram. Seu olhar de fora para dentro do grande cristal era uma mistura de paixão febril pela pedra, com ódio fervoroso contra os hegeres. Aquelas costelas desnudas dançando impulsivas e os pés negros de carvão, causavam repugnância, contraste evidente com os movimentos curtos, os olhos brancos e pele pálida dos amantes do gelo. Os bons cristãos do velho testamento resolveram por fim reagir, uns se sentado no chão, apontando, caçoando. Outros exaltados, exaltadores do controle, moveram socos e pontapés. Faziam também dança envolta do gelo, contudo dança marchada, vestida de bandeira única. A periferia criou-se nos gritos.

Pedaços de gelo ainda caem, agora com instrumentos específicos que dão ar de escultura ao bloco, e sabe-se lá qual será sua forma final. Uns dizem que não é nada mais que uma caricatura amedrontadora, que tem o objetivo de assustar os eufóricos profanadores. Outros dizem que a caricatura é um monstro que em algum momento terá vida própria para dominar todos, inclusive seus criadores. Tratasse neste segundo caso de um mito já vivenciado anteriormente. Aos marginais de fora, resta às queimaduras de frio, as barrigas famintas e a confusão da opressão. Aos que ainda permanecem lá dentro resta o medo. O gelo, embora restrinja todos os movimentos, fornece sensação de segurança. De dentro não é preciso opinar sobre os mais e menos selvagens. Vez ou outra se descongela um dedo aquecido pelo sol e isso basta para contentar a existência mediana. [L.B]